sábado, 19 de setembro de 2015

Grupo 6- Gênero no Ambiente Escolar





Questão de gênero

Rosa para meninas, azul para meninos Não mais!Rever velhos estereótipos e preconceitos desde a infância é a saída para um mundo mais igualitário
BRUNA NICOLIELO

Meninas brincam de boneca e casi­nha, meninos de carrinho e super--heróis. Elas são delicadas, eles mais agitados. Garotas têm facili­dade em leitura, garotos em mate­mática. Em casa e na escola, mui­tas situações aparentemente comuns reproduzem concepções de género preestabelecidas e quase sempre equivocadas. "Esses padrões, de uma época em que a principal função da mulher era ter filhos, foram sendo internalizados através dos tempos e ain­da hoje persistem, apesar das conquistas femininas", aponta Teresa Creusa Negreiros, professora da Ponti­fícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.
Ao longo do século 20, ganhamos o direito ao vo­to, ingressamos no mercado de trabalho, fomos à universidade, adiamos a maternidade e comparti­lhamos os gastos com a manutenção da casa. As re­lações entre os sexos continuam se transformando hoje, 38,7% dos lares são chefiados por mulhe segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Esta­tística (IBGE). Tudo isso embaralhou os papéis tra­dicionais. "Atualmente, há uma linha muito ténue sobre o que é ser homem e o que é ser mulher, além de uma série de atitudes e necessidades que des­montam as características de cada género", diz a psicóloga Maria Helena Vilela, diretora executiva do Instituto Kaplan, em São Paulo.
Com tantas mudanças, por que ainda existem comportamentos considerados femininos ou mascu­linos? Por que até mesmo a forma de brincar repro­duz velhos estereótipos? "Perpetuar essas diferenças limita o processo de aprendizado, tolhe oportunida­des para ambos os sexos e incentiva futuros precon­ceitos", explica Constantina-Xavier, professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do grupo de trabalho sobre género da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Para alguém que passou a infância aprendendo que só menina brinca de casinha, fica mais fácil se tornar um adulto que acredita que as tarefas domésticas são estritamente femininas, por exemplo. "Vemos implicações disso na vida de muitas mulheres que não contam com a ajuda do parceiro para cuidar dos filhos e da casa", aponta Carolina Fa­ria Alvarenga, professora da Universidade Federal de Lavras, ela própria mãe de um menino que gosta de bonecas (veja a história dele e de outras crianças nos quadros). "Ao fazer isso, os garotos aprendem a culti­var relações de cuidado, afeto è respeito", defende a antropóloga Michele Escoura, que pesquisou corno.as noções de género são construídas em crianças de 5 anos de escolas públicas e particulares do interior de São Paulo. Ela observou que os pequenos reproduzem a fala do adulto e modelos de comportamento que re­forçam a dicotomia homem-mulher.
A escola, muitas vezes, também colabora para a per­petuação dessas crenças ao manter divisões entre os sexos nas brincadeiras e reforçar estereótipos, quando, por exemplo, uma professora elogia a doçura de uma aluna e a objetividade de um aluno ou justifica a agressividade como algo próprio dos garotos. Feliz­mente, as coisas estão começando a mudar. Em 1997, orientações para trabalhar com a questão da sexuali­dade foram incorporadas aos Parâmetros Curricula­res Nacionais (PCNs). Em 2009, foi a vez das Diretri-zes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil incluírem o tema. Hoje, quase todos os cursos de gra­duação em pedagogia têm disciplinas relacionadas a género. Como resultado, muitas instituições elabo­ram ações para reduzir a desigualdade e os precon­ceitos. É o caso da Escola Municipal Ernâni Silva Bruno, em São Paulo, e da Escola Henfil, em Belo Horizonte, em que meninos e meninas são estimula­dos a brincar do que quiserem e os professores rece­bem formação constante para poder intervir adequa­damente. Ja no Colégio Ofélia da Fonseca, também em São Paulo, todos participam juntos de aulas de dança, taek-won-do, capoeira e natação. "O ambiente escolar é um espaço importante de reflexão sobre a superação de desigualdades", diz Constantina. O pa­pel dos professores, assim como dos pais, é respeitar as escolhas das crianças e supervisioná-las sem cen­surar. Segundo a especialista, discussões sobre cores e brincadeiras sem distinção de género podem ser propostas a partir da educação infantil


Boneca é coisa de menino, Sim!
Na casa de Pedro, 3 anos, os carrinhos dividem espaço com as bonecas. O menino gosta de brincar de casinha e fazer comidinha. Oferecer esse tipo de brinquedo foi ideia de sua mãe. Carolina Faria Alvarenga, que pesquisa a relação entre género e educação. "Ele sempre ganhava carrinhos dos parentes; então, quis estimular outras brincadeiras." O mesmo vale para a irmã, Ana, 1 ano e 11 meses, que pode escolher uma diversidade de atividades, mas prefere as mais agitadas, como andar de velotrol e bicicleta com rodinhas. As duas crianças também brincam juntas, em atividades de "menino" e "menina". A princípio, a família estranhou essa postura, mas se acostumou e hoje já presenteia os dois seguindo os mesmos princípios de Carolina, que prefere brinquedos de madeira aos de plástico e bonecas de pano, com menos detalhes, por acreditar que eles estimulam a imaginação dos pequenos. Essa postura mais livre ainda causa questionamentos. Em um passeio com os pais pelo centro de Lavras (MG), onde moram, Pedro quis levar uma boneca. Duas outras crianças manifestaram espanto ao vê-lo na rua com o brinquedo. A avó de um deles tentou por panos quentes dizendo: "Ele está segurando aboneca da irmãzinha". Carolina interviu explicando que o dono era mesmo o garoto.


Toda criança tem direito ao faz de conta
No ano passado, quando se deparou com uma caixa cheia de roupas brilhantes, Rodrigo, hoje com 6 anos, quis experimentá-las. Eram fantasias de princesa que ficavam em um dos espaços do Centro Municipal de Educação Infantil Cid Passos, em Salvador. As crianças riram dele. Alguns s funcionários afirmaram que jamais admitiriam que seus filhos ou alunos usassem trajes semelhantes. Em vez de censurar o garoto, a professora Geiza Luiza
Ribeiro do Espírito Santo pôs a turma inteira para pensar. Ela propôs que cada um escolhesse uma fantasia da caixa e, em seguida, comentou que as pessoas têm gostos diferentes e isso deve ser respeitado. Por fim, todos fizeram um passeio pela escola -cada um com a fantasia que tinha escolhido. Mesmo depois da conversa, um grupo de colegas ainda zombava da situação. "Comentei com Rodrigo que algumas pessoas riram e disseram
que ele estava igual a uma menina e perguntei o que achava daquilo", conta Geiza. Ele respondeu que não se incomodava. A proposta da professora era fazer o garoto refletir. "É importante preparar a criança para um eventual bullying explicando que as pessoas podem não entender, mas que ela não deve se aborrecer", afirma a psicóloga Maria Helena. O episódio mobilizou a escola, mas, ao final, todos aprenderam que é preciso respeitar o diferente.
A divisão entre masculino e feminino que se vê na sociedade é reforçada pela publicidade e pelo mer­cado. Isso é evidente já nas embalagens dos brin­quedos e nas próprias lojas, que têm departamen­tos separados por sexo: a ala rosa reproduz o uni­verso doméstico, enquanto a azul traz objetos liga­dos à aventura e à virilidade. Mas a indústria de brinquedos está começando a repensar essa lógica, sobretudo pela influência dos próprios consumi­dores. "Algumas meninas gostam de super-heróis, outras gostam de princesas. Alguns meninos gos­tam de super-heróis, outros gostam de princesas... Então por que todas as meninas têm que comprar coisas cor-de-rosa e todos os meninos devem com­prar coisas de cores diferentes?", esbravejou a nor­teamericana Riley Maida, 4 anos, em um vídeo que viralizou na internet. A primeira a ouvir esse clamor foi a Top Toy, maior cadeia de brinquedos da Escandinávia. Ela criou um catálogo neutro, sem indicar brinquedos especificamente para ga­rotos ou garotas. Até a Mattel, gigante dessa in­dústria, reconhece que o mundo mudou e que, por isso, a diversão deve mudar também. "As crianças são muito boas em decidir por elas mesmas com qual brinquedo querem brincar. Um carrinho po­de facilmente estimular a imaginação de uma ga­rotinha, assim como um garoto pode se divertir com uma boneca. Na verdade, sabemos que exis­tem muitos meninos que gostam da Barbie e mui­tas meninas que preferem os carrinhos da Hot Wheels", disse o americano Michael Shore, vice--presidente da divisão Future Play da empresa, em entrevista à CLAUDIA. "O que importa é que to­dos sejam expostos a uma grande variedade de aprendizados e experiências", ele completa, en­grossando o coro dos especialistas.»


Ela é boa de bola
O coração de Gabriela, 11 anos, bate forte pelo futebol. Começou aos 6 anos, no Colégio Imaculada Conceição, no Rio de Janeiro, onde estuda até hoje - a unidade incentiva jogos cooperativos que envolvem meninos e meninas, mas viu crescer a participação das garotas no futebol no último ano, quando o time de Gabriela foi campeão. A mãe dela, a empresária Vanessa Santos Medeiros, 35 anos, também gostava de jogar bola na infância com os meninos, mas o fazia escondido, porque a mãe não deixava. Em 2014, Gabriela participou de um acampamento da escolinha do Flamengo - era uma das duas meninas em um grupo de 150 crianças. "No início, eles estranharam um pouco. Os garotos da minha própria equipe roubavam a bola de mim, o que me deixava bastante chateada", conta. No maior time do Brasil, elas são minoria: são 150 garotas matriculadas, contra 12 mil meninos. Para o clube, o principal entrave é o preconceito. Gabriela dá de ombros, contando com o apoio da mãe. "Sempre me preocupei em oferecer diversas possibilidades a ela. Não dá para se importar com tudo o que as pessoas falam", diz Vanessa. A menina virou uma espécie de garota-propaganda do Flamengo e sua foto estampa materiais do clube que incentivam a adesão feminina ao esporte. Apesar disso, tios e primos ainda questionam as escolhas da família: "Por que você não coloca Gabriela no balé?", perguntam. A mãe tem uma resposta na ponta da língua: "Assim como eu, ela gosta de atividades agitadas. E, hoje, as mulheres desempenham vários papéis".


AGOSTO 2015 | CLAUDIA 159








2 comentários:

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  2. Ainda nos dias de hoje estamos numa sociedade machista, onde se reflete nas escolas, pois as diferenças começam pelos adultos.
    De acordo com o texto que lemos, analisamos que o ser humano é moldado desde criança conforme o meio em que vive, reproduzindo a fala dos adultos, menino aprende que brincar de casinha e coisa de menina, e a menina aprende desde cedo que ela tem que ser dona de casa e ter boa aparência.
    O respeito é fundamental para um bom convívio em todos os ambientes e não deveria ser diferentes nos espaços escolares, não discordamos que a escola é um espaço de formação, em que o respeito deve ser a base para a vivência de todos os cidadãos que fazem parte deste espaço escolar.
    Portanto a ideologia de Gênero se refere as características sociais e culturais que formam a personalidade de homens e mulheres, e que não deveria ter desigualdade entre eles.
    A igualdade deveria ser uma ferramenta para a garantia de que meninos e meninas sejam livres para agir não somente na escola, mas em todos os lugares com liberdade e mostrando que são iguais e capazes, sentindo-se confortáveis sem se preocuparem em cumprir determinados papéis pré estabelecidos.
    É função da escola formar sujeitos que se norteiem pelos direitos humanos, respeitando uns aos outros.

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