Questão de gênero
Rosa para meninas, azul para meninos Não mais!Rever velhos estereótipos e preconceitos desde a infância é a saída para um mundo mais igualitário
BRUNA NICOLIELO
Meninas brincam de boneca e casinha, meninos de carrinho e super--heróis. Elas são delicadas, eles mais agitados. Garotas têm facilidade em leitura, garotos em matemática. Em casa e na escola, muitas situações aparentemente comuns reproduzem concepções de género preestabelecidas e quase sempre equivocadas. "Esses padrões, de uma época em que a principal função da mulher era ter filhos, foram sendo internalizados através dos tempos e ainda hoje persistem, apesar das conquistas femininas", aponta Teresa Creusa Negreiros, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro.
Ao longo do século 20, ganhamos o direito ao voto, ingressamos no mercado de trabalho, fomos à universidade, adiamos a maternidade e compartilhamos os gastos com a manutenção da casa. As relações entre os sexos continuam se transformando hoje, 38,7% dos lares são chefiados por mulhe segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tudo isso embaralhou os papéis tradicionais. "Atualmente, há uma linha muito ténue sobre o que é ser homem e o que é ser mulher, além de uma série de atitudes e necessidades que desmontam as características de cada género", diz a psicóloga Maria Helena Vilela, diretora executiva do Instituto Kaplan, em São Paulo.
Com tantas mudanças, por que ainda existem comportamentos considerados femininos ou masculinos? Por que até mesmo a forma de brincar reproduz velhos estereótipos? "Perpetuar essas diferenças limita o processo de aprendizado, tolhe oportunidades para ambos os sexos e incentiva futuros preconceitos", explica Constantina-Xavier, professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e coordenadora do grupo de trabalho sobre género da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Para alguém que passou a infância aprendendo que só menina brinca de casinha, fica mais fácil se tornar um adulto que acredita que as tarefas domésticas são estritamente femininas, por exemplo. "Vemos implicações disso na vida de muitas mulheres que não contam com a ajuda do parceiro para cuidar dos filhos e da casa", aponta Carolina Faria Alvarenga, professora da Universidade Federal de Lavras, ela própria mãe de um menino que gosta de bonecas (veja a história dele e de outras crianças nos quadros). "Ao fazer isso, os garotos aprendem a cultivar relações de cuidado, afeto è respeito", defende a antropóloga Michele Escoura, que pesquisou corno.as noções de género são construídas em crianças de 5 anos de escolas públicas e particulares do interior de São Paulo. Ela observou que os pequenos reproduzem a fala do adulto e modelos de comportamento que reforçam a dicotomia homem-mulher.
A escola, muitas vezes, também colabora para a perpetuação dessas crenças ao manter divisões entre os sexos nas brincadeiras e reforçar estereótipos, quando, por exemplo, uma professora elogia a doçura de uma aluna e a objetividade de um aluno ou justifica a agressividade como algo próprio dos garotos. Felizmente, as coisas estão começando a mudar. Em 1997, orientações para trabalhar com a questão da sexualidade foram incorporadas aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Em 2009, foi a vez das Diretri-zes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil incluírem o tema. Hoje, quase todos os cursos de graduação em pedagogia têm disciplinas relacionadas a género. Como resultado, muitas instituições elaboram ações para reduzir a desigualdade e os preconceitos. É o caso da Escola Municipal Ernâni Silva Bruno, em São Paulo, e da Escola Henfil, em Belo Horizonte, em que meninos e meninas são estimulados a brincar do que quiserem e os professores recebem formação constante para poder intervir adequadamente. Ja no Colégio Ofélia da Fonseca, também em São Paulo, todos participam juntos de aulas de dança, taek-won-do, capoeira e natação. "O ambiente escolar é um espaço importante de reflexão sobre a superação de desigualdades", diz Constantina. O papel dos professores, assim como dos pais, é respeitar as escolhas das crianças e supervisioná-las sem censurar. Segundo a especialista, discussões sobre cores e brincadeiras sem distinção de género podem ser propostas a partir da educação infantil
Boneca é coisa de menino, Sim!
Na casa de Pedro, 3 anos, os carrinhos dividem espaço com as bonecas. O menino gosta de brincar de casinha e fazer comidinha. Oferecer esse tipo de brinquedo foi ideia de sua mãe. Carolina Faria Alvarenga, que pesquisa a relação entre género e educação. "Ele sempre ganhava carrinhos dos parentes; então, quis estimular outras brincadeiras." O mesmo vale para a irmã, Ana, 1 ano e 11 meses, que pode escolher uma diversidade de atividades, mas prefere as mais agitadas, como andar de velotrol e bicicleta com rodinhas. As duas crianças também brincam juntas, em atividades de "menino" e "menina". A princípio, a família estranhou essa postura, mas se acostumou e hoje já presenteia os dois seguindo os mesmos princípios de Carolina, que prefere brinquedos de madeira aos de plástico e bonecas de pano, com menos detalhes, por acreditar que eles estimulam a imaginação dos pequenos. Essa postura mais livre ainda causa questionamentos. Em um passeio com os pais pelo centro de Lavras (MG), onde moram, Pedro quis levar uma boneca. Duas outras crianças manifestaram espanto ao vê-lo na rua com o brinquedo. A avó de um deles tentou por panos quentes dizendo: "Ele está segurando aboneca da irmãzinha". Carolina interviu explicando que o dono era mesmo o garoto.
Toda criança tem direito ao faz de conta
No ano passado, quando se deparou com uma caixa cheia de roupas brilhantes, Rodrigo, hoje com 6 anos, quis experimentá-las. Eram fantasias de princesa que ficavam em um dos espaços do Centro Municipal de Educação Infantil Cid Passos, em Salvador. As crianças riram dele. Alguns s funcionários afirmaram que jamais admitiriam que seus filhos ou alunos usassem trajes semelhantes. Em vez de censurar o garoto, a professora Geiza Luiza
Ribeiro do Espírito Santo pôs a turma inteira para pensar. Ela propôs que cada um escolhesse uma fantasia da caixa e, em seguida, comentou que as pessoas têm gostos diferentes e isso deve ser respeitado. Por fim, todos fizeram um passeio pela escola -cada um com a fantasia que tinha escolhido. Mesmo depois da conversa, um grupo de colegas ainda zombava da situação. "Comentei com Rodrigo que algumas pessoas riram e disseram
que ele estava igual a uma menina e perguntei o que achava daquilo", conta Geiza. Ele respondeu que não se incomodava. A proposta da professora era fazer o garoto refletir. "É importante preparar a criança para um eventual bullying explicando que as pessoas podem não entender, mas que ela não deve se aborrecer", afirma a psicóloga Maria Helena. O episódio mobilizou a escola, mas, ao final, todos aprenderam que é preciso respeitar o diferente.
A divisão entre masculino e feminino que se vê na sociedade é reforçada pela publicidade e pelo mercado. Isso é evidente já nas embalagens dos brinquedos e nas próprias lojas, que têm departamentos separados por sexo: a ala rosa reproduz o universo doméstico, enquanto a azul traz objetos ligados à aventura e à virilidade. Mas a indústria de brinquedos está começando a repensar essa lógica, sobretudo pela influência dos próprios consumidores. "Algumas meninas gostam de super-heróis, outras gostam de princesas. Alguns meninos gostam de super-heróis, outros gostam de princesas... Então por que todas as meninas têm que comprar coisas cor-de-rosa e todos os meninos devem comprar coisas de cores diferentes?", esbravejou a norteamericana Riley Maida, 4 anos, em um vídeo que viralizou na internet. A primeira a ouvir esse clamor foi a Top Toy, maior cadeia de brinquedos da Escandinávia. Ela criou um catálogo neutro, sem indicar brinquedos especificamente para garotos ou garotas. Até a Mattel, gigante dessa indústria, reconhece que o mundo mudou e que, por isso, a diversão deve mudar também. "As crianças são muito boas em decidir por elas mesmas com qual brinquedo querem brincar. Um carrinho pode facilmente estimular a imaginação de uma garotinha, assim como um garoto pode se divertir com uma boneca. Na verdade, sabemos que existem muitos meninos que gostam da Barbie e muitas meninas que preferem os carrinhos da Hot Wheels", disse o americano Michael Shore, vice--presidente da divisão Future Play da empresa, em entrevista à CLAUDIA. "O que importa é que todos sejam expostos a uma grande variedade de aprendizados e experiências", ele completa, engrossando o coro dos especialistas.»
Ela é boa de bola
O coração de Gabriela, 11 anos, bate forte pelo futebol. Começou aos 6 anos, no Colégio Imaculada Conceição, no Rio de Janeiro, onde estuda até hoje - a unidade incentiva jogos cooperativos que envolvem meninos e meninas, mas viu crescer a participação das garotas no futebol no último ano, quando o time de Gabriela foi campeão. A mãe dela, a empresária Vanessa Santos Medeiros, 35 anos, também gostava de jogar bola na infância com os meninos, mas o fazia escondido, porque a mãe não deixava. Em 2014, Gabriela participou de um acampamento da escolinha do Flamengo - era uma das duas meninas em um grupo de 150 crianças. "No início, eles estranharam um pouco. Os garotos da minha própria equipe roubavam a bola de mim, o que me deixava bastante chateada", conta. No maior time do Brasil, elas são minoria: são 150 garotas matriculadas, contra 12 mil meninos. Para o clube, o principal entrave é o preconceito. Gabriela dá de ombros, contando com o apoio da mãe. "Sempre me preocupei em oferecer diversas possibilidades a ela. Não dá para se importar com tudo o que as pessoas falam", diz Vanessa. A menina virou uma espécie de garota-propaganda do Flamengo e sua foto estampa materiais do clube que incentivam a adesão feminina ao esporte. Apesar disso, tios e primos ainda questionam as escolhas da família: "Por que você não coloca Gabriela no balé?", perguntam. A mãe tem uma resposta na ponta da língua: "Assim como eu, ela gosta de atividades agitadas. E, hoje, as mulheres desempenham vários papéis".
AGOSTO 2015 | CLAUDIA 159